ONG Parceira do PortoWeb

Entrevista com Luiz Portinho

A estudante de jornalismo Maria Eduarda Petek realizou, nos meses de setembro, outubro e novembro, algumas entrevistas por telefone e e-mail com o Presidente da RS Paradesporto Luiz Portinho. Na sequência um trecho das conversas, na qual Portinho fala sobre investimentos do Estado e preconceito em relação às pessoas com deficiência.




Como havia me falado, o Estado está desde 2011  sem fazer investimentos na Associação. Até essa data, que tipo de incentivos eles concediam?


Eventualmente, o Estado do RS fazia incentivos através de convênios para cobertura de despesas de viagens para competições, realização de eventos e/ou aquisição de materiais

 Quais os valores?  Qual o gasto mensal necessário da  Associação?


Apenas nossa Sede Administrativa tem um custo mensal de R$ 2.000,00. O projeto ESCOLA PARAOLIMPICA GAUCHA, que conta com apoio da UNESCO, consome mais de R$ 15.000,00 mensais.

Cada modalidade esportiva paraolímpica demanda, mensalmente, valores que giram entre R$ 2.500,00 (modalidades individuais) e R$ 10.000,00 (basquete em cadeira de rodas); esses valores são necessários para contratação de profissionais, aquisição de materiais esportivos, despesas com combustível, alimentação e ajudas de custo para atletas.

 Como o governo Estadual vem agindo com a  Associação, há amparo
 eficiente?


Há algum tempo o Estado do RS optou por apenas investir diretamente na realização de algumas competições e custeio de delegações para as Paralimpiadas Escolares. Infelizmente, não há subsídios diretos para o custeio de atividades desenvolvidas por ONGs ou Associações

 Antes de seguirmos, que tipo de ajuda e trabalho  vocês praticam junto a comunidade de pessoas com  deficiência?

O trabalho basicamente é de ressocialização e inclusão das pessoas com deficiência, tanto através do esporte paraolímpico como de outras atividades culturais e sociais, incluindo-se aí cursos de especialização e direcionamento para o mercado de trabalho, através de parcerias várias. Costumamos dizer que nossa Associação não existe para ajudar ninguém, mas sim para transformar as pessoas com deficiência em protagonistas de seus próprios destinos. Detestamos práticas assistencialistas.


 Quais os níveis de prática esportiva e  treinamento vocês oferecem? Para lazer,
 competição, etc?


Da inicialização paraolímpica (procurar no google por ESCOLA PARAOLIMPICA GAUCHA) até modalidades de alto rendimento, como o basquete, atletismo, natação, tenis de mesa, bocha paraolímpica, ciclismo, entre outras.

 Os serviços que prestam são pagos ou  gratuitos?

TODOS os projetos da Associação são gratuitos.

Vocês possuem outras parcerias  públicas? E privadas? Qual delas é mais  atuante?

Há algumas parcerias com empresas privadas que contribuem com pequenos valores mensais em troca de divulgação das marcas nos espaços físicos e de redes sociais; também possuímos o SÓCIO CONTRIBUINTE que é uma modalidade para que pessoas físicas possam se engajar e contribuir com o custeio dos vários projetos e ações. E ainda a realização de eventos pontuais, destacando-se a parceria com o restaurante Parrilla del Sur, no evento denominado Ajudar também é uma Delícia.

Como disse, atualmente, contamos com importantes aportes financeiros da UNESCO, através do programa Criança Esperança, que financia inteiramente as atividades da Escola Paraolímpica Gaúcha. Além disso, no ano de 2015, conseguimos assinar, pela primeira vez, um convênio com a Prefeitura de Porto Alegre (via Secretaria de Acessibilidade), que rendeu importantes auxílios para alguns de nossos atletas paraolímpicos.

 O Estado esclareceu o motivo por não estar mais  fazendo investimentos na Associação?

Trata-se de uma política (ou da falta de uma política pública de investimentos diretos na subvenção desse tipo de projetos). Infelizmente, temos o Estado atuando com força no patrocínio de entidades esportivas, especialmente no futebol, como é o caso do BANRISUL. São mais de R$ 15 milhões mensais investidos em Gremio e Inter, por exemplo. E outros tantos em equipes de futebol do interior. O basquete de Caxias que disputa a NBB também conta com substancioso patrocínio do BANRISUL, assim como equipes de volei. O esporte paraolímpico, infelizmente, nunca foi agraciado com tais verbas, configurando-se a nosso ver, evidente preconceito. Aliás, tal tipo de aplicação de verbas pública, a nosso ver, configura nítida discriminação.

 Vocês já tiveram pedidos negados - se sim,  conte-nos, por favor?

Várias vezes. No BANRISUL por exemplo já apresentamos diversos projetos, conversamos pessoalmente com os diretores do Banco, participamos de certames e editais de patrocínio e NUNCA fomos contemplados. Pode-se dizer que entre um torneio de "cuspe a distância" e uma equipe paraolímpica, a preferência seria para o "cuspe", tamanho é o preconceito que enfrentamos.

O mesmo acontece com o Estado. São mais de 15 anos que atuo como dirigente paraolímpico ouvindo "NÃO"s" dos "gestores" incompetentes e preconceituosos que se revezam nas cadeiras da administração pública.


 Qual o impacto no trabalho de vocês que essa  atitude do Estado ocasiona?

O impacto é extremamente negativo e desgastante. Centenas de atletas paraolímpicos já deixaram de exercer suas potencialidades na plenitude em face do descaso do poder público. Nossa equipe de basquete em cadeira de rodas, usualmente, é alvo de desestabilização em virtude de práticas da secretaria de esportes do municipio de porto alegre que dificultam a boa frequencia e rotina dos treinos. O projeto de atletismo ficou mais de 5 anos trancado numa gaveta, porque os administradores do CETE (unica pista de atletismo com boas condições para treino), à época, eram intransigentes na proibição de atletas paraolímpicos. O projeto da Escola Paraolímpica Gaucha também esperou por mais de 6 anos para iniciar (e só foi possivel iniciá-lo através de representações junto ao Ministério Público). Até hoje não temos um projeto fixo de natação por falta de apoios.  

 Recentemente, o ginásio no qual praticam  ameaçou-os de desligar as luzes se não  houvesse um número X de praticantes. Como isso foi  resolvido? E como se sentiram diante dessa afronta a  prática do paradesporto?

Conforme pincelei acima, a secretaria de esportes do municipio de forma reiterada prejudica a rotina de treinos da equipe de basquete com suspensões ou interrupcões de horários. Quando não são impostas absurdas exigências como essa que mencionas (das luzes).

Resolvemos o problema lançando-o ao conhecimento da comunidade, na mídia, rádios e em nossas redes sociais. Com isso, conseguimos expor a pratica ilícita e abusiva do administrador da coisa pública, fazendo-o cumprir seus deveres. Quando isso não funciona, infelizmente, somos obrigados a solicitar intervenções do Ministério Público ou até mesmo do Judiciário.

O cidadão precisa compreender que tem direitos e não pode ficar a mercê dos caprichos e absurdas perseguições de gestores da coisa pública. É isso que tentamos fazer, mas cada episódio desses traz um desgaste enorme. O sentimento é de perseguição, de preconceito, de exclusão e de que a luta é muito necessária contra o arbítrio de alguns que se entitulam donos da coisa pública.


 Recentemente, atletas da associação  participaram das Paralimpíadas Escolares em  São Paulo. O Estado teve algum envolvimento com a  participação de vocês no campeonato,  auxiliou-os de alguma forma?

Sim. O Estado do Rio Grande do Sul organiza a delegação e faz a seleção dos atletas através de uma competição (o Paracergs). Depois financia os deslocamentos da delegação de atletas gaúchos até o local da competição, com custeio de passagens aéreas e equipe técnica. Esse ano a competição aconteceu em São Paulo e tivemos a felicidade de contar com 5 alunos da Escola Paraolímpica compondo a delegação (eles regressaram com 10 medalhas no atletismo e tenis de mesa).

 Qual o principal resultado que buscam com as
 ações de vocês?


O principal resultado é a mudança de paradigmas em relação as pessoas com deficiência. Transformar as pessoas com deficiência em protagonistas da sociedade. PROTAGONISMO.


O descaso do Estado  interfere como na vida das pessoas que atendem?

Com certeza. Desde as calçadas esburacadas, aos ônibus e transportes públicos sem acessibilidade, a falta de políticas públicas nas áreas de educação, saúde, esporte. Enfim, todo esse descaso de que somos conhecedores, somado aos episódios pontuais aqui descritos, causam exclusão, e muita exclusão.

Somos hoje 25% da população. 2.5 milhões de pessoas com deficiência (PCDs) só no Estado do Rio Grande do Sul. E nas campanhas eleitorais sequer são abordados os temas de acessibilidade e de interesse das PCDs. O descaso continua muito grande! Se não empoderarmos essas pessoas, de forma a que tenham conhecimento de seus direitos e ciência das formas para concretizá-los, dificilmente conseguiremos alterar esse contexto.
 
 Caso queira agregar alguma informação que  não esteja diretamente relacionado às  perguntas, fique a vontade; eu te agradeço, na  verdade.

Eu e a RS Paradesporto é que agradecemos o espaço e a oportunidade de tratar sobre tais temas. Como costumamos afirmar, precisamos colocar, com urgência, a acessibilidade e os temas relativos as pessoas com deficiência na pauta de prioridades de nossa sociedade. 

Porto Alegre, em 01 de dezembro de 2016

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